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Era de Aquário não começa em 2020. Entenda.

Você deve ter lido em alguns lugares que a Era de Aquário começa no dia 21 de dezembro de 2020, por conta da conjunção especial de Júpiter e Saturno. Só que não, ela não começa hoje, e quem afirmar o contrário está redondamente enganado.

Na cidade italiana de Veneza, no interior do Palazzo Ducale, encontra-se um relógio decorado por signos zodiacais. O único ponteiro deste imenso relógio aponta para o início do signo de Peixes e, a um primeiro olhar, você pensará que o objeto está quebrado, já que não se move.

Só que o relógio não está quebrado. O que ocorre é que seu ponteiro é posicionado de acordo com a constelação que marca o início do equinócio de primavera no Hemisfério Norte e de outono no Hemisfério Sul. Este é um relógio especial, pois não marca as horas ou os dias, mas sim as eras astrológicas, sendo que cada uma delas tem duração de mais de dois mil anos.

Caso você visite o Palazzo Ducale hoje, ou em 2022, ou mesmo em 2050, verá que o ponteiro continua no mesmo lugar: no início do signo de Peixes, que é a constelação que marca o início da primavera (no Norte) e do outono (no Sul). Daqui a várias centenas de anos, este ponteiro será reposicionado para o signo de Aquário, pois, no que diz respeito às eras, o movimento é invertido.

Para entender melhor tudo isso, vamos por partes: é preciso, antes de tudo, entender o que é uma “era”.

Origem da imagem: Alexey Dodsworth, arquivo pessoal.

Eras astrológicas: a precessão dos equinócios

A primeira coisa importante a ter em mente é que existe uma diferença entre os signos astrológicos (que são signos “trópicos”, estão na Terra, não são constelações) e as constelações zodiacais.

Deste modo, quando um astrólogo fala do signo de Câncer, ele não está se referindo à constelação de Câncer (ou Caranguejo). Os signos astrológicos são projeções virtuais da Terra no céu. Já as constelações constituem desenhos arbitrários que ligam estrelas (como num jogo de “ligue os pontos”), formando figuras.

Deste modo, vale repetir, quando astrólogos falam em signo de Touro, isso não é a mesma coisa que constelação do Touro. Até porque as constelações têm um movimento aparente lentíssimo no céu, enquanto os signos astrológicos não se modificam.

Mas por que as constelações se “movem”? Na verdade, o que ocorre é um processo natural chamado de precessão axial, que funciona da seguinte forma: por conta da gravidade, o eixo de rotação da Terra se desloca lentamente, apontando para as constelações zodiacais. Veja a imagem a seguir:

Robert Simmon, NASA (domínio público)

As setas brancas que apontam para a direita representam o movimento de rotação da Terra em torno de seu próprio eixo, que é representado pela seta vermelha. Acontece que este eixo (a seta vermelha) também se movimenta de forma extremamente lenta, imperceptível para nós humanos, formando uma espécie de círculo.

Uma volta completa deste eixo leva em torno de 25.800 anos. Isso mesmo: vinte e cinco mil e oitocentos anos, o que dá em torno de dois mil, cento e cinquenta anos para cada constelação.

É para onde esta seta vermelha (o eixo terrestre) aponta que define em que “era” nos encontramos. Neste preciso momento, a seta aponta para o ponto de transição entre as constelações de Peixes e de Aquário, levemente mais inclinada para Peixes do que para Aquário.

E isso é algo que você pode constatar por si! Basta brincar um pouco com um programa de astronomia disponível online e gratuito: stellarium.org. Ao inserir uma data, hora e local, você consegue ver o céu daquele dia, seja deste ano ou de qualquer outro ano que você quiser.

Por volta de 20 e 21 de março de todos os anos, ocorrem os equinócios. A primavera irrompe nas terras do Hemisfério Norte, o outono domina o Hemisfério Sul. Nesta data, seja em 2020, 2021, 2050 ou 2100, o Sol estará transitando pela constelação de Peixes (repito: constelação é uma coisa, signo astrológico é outra).

Para ilustrar, veja os “prints” de três datas diferentes: 20 de março de 2020, 20 de março de 2700 e 20 de março do ano 3000.

Na imagem a seguir, vemos o céu do dia 20 de março de 2020 ao amanhecer. O Sol está alinhado com um pedacinho da constelação de Peixes. Acima dele, vemos a constelação de Aquário. Ou seja: quem marca o início do equinócio é a constelação de Peixes, portanto estamos na Era de Peixes.

Origem da imagem: Stellarium.org

Nesta próxima imagem, vemos o céu de daqui a 680 anos: 20 de março de 2700, ao amanhecer. O Sol não está mais alinhado à constelação de Peixes, mas também não se alinhou à constelação de Aquário. Está em transição de um ponto ao outro, mas por convenção já podemos definir isso como “Era de Aquário”.

Por fim, temos o céu de 20 de março do ano 3000, ao nascer do Sol. Observe que, nesta imagem, o Sol se alinha perfeitamente à constelação de Aquário.

Origem da imagem: Stellarium.org

A grande conjunção de Júpiter e Saturno em Aquário

Daí você provavelmente está pensando: mas no dia 21 de dezembro de 2020 não ocorre a grande conjunção de Júpiter e Saturno no signo astrológico de Aquário? Se você tiver sorte e o céu estiver claro, tanto hoje como nos próximos dias de dezembro de 2020 você poderá ver Júpiter e Saturno alinhados logo acima do pôr-do-sol. Logo, a resposta é: sim, é de fato uma conjunção relativamente rara (ocorre a cada vinte anos), mas não marca, de jeito nenhum, o início de uma nova era.

Não é a primeira vez que ocorre esse tipo de distorção de conceitos. Quando Urano entrou em Aquário no fim do século passado, ocorreram os mesmos “anúncios” do início da Era de Aquário. Mais um grande equívoco. O que determina o início de uma era astrológica nova é a constelação alinhada com o Sol durante o equinócio de 20/21 de março. E este eixo, conforme demonstrado neste artigo, ainda aponta para Peixes.

De todo modo, não há razão para se frustrar, pois, mesmo sob uma perspectiva astrológica, é totalmente incorreto supor que Aquário seja “melhor” que Peixes, ou vice-versa. Uma “nova era” não é uma era “melhor”, é uma era com virtudes distintas e problemas diferentes. Os nossos descendentes da Era de Aquário viverão em um mundo muito melhor sob vários aspectos, mas também com novas complicações.

Além de tudo o que já foi dito, concluo com um questionamento: será que adianta esperar passivamente que um evento cósmico mude o mundo para melhor? Do mesmo modo que não faz sentido esperar por janeiro de 2021 para mudar nossos hábitos só porque “é ano novo”, faz menos sentido ainda aguardar por uma nova era para desejar um mundo melhor. Seja você a mudança que deseja ver no mundo!

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Alexey Dodsworth

Doutor em Filosofia pelas universidades de Veneza e de São Paulo. Tem ampla experiência em ensino de Filosofia, já tendo sido consultor da Unesco e assessor especial no Ministério da Educação. Pesquisa Astrologia desde 1987.

alexey-revista@personare.com.br

Esse autor faz parte do Portal Personare.
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